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Opinião
 

A Voz da Terceira merece mais


Sexta-feira, 04.13.2007, 10:15am (GMT-1)

Depois dum curto afastamento deparei com a notícia do colóquio integrado no aniversário da Rádio Clube de Angra.
Não sei o que lá foi discutido, nem tão pouco me sinto no direito a tal. Mas pela síntese fiquei com uma impressão de vazio por julgar que o nosso velhinho RCA merece mais por tudo o que fez pelos Açores. O RCA não foi só a Voz da Terceira, foi a Voz dos Açores e em certo momento histórico foi a Voz Universal – embora através da Estação Amadora de CT2AP e Rádio Clube Português sedeado na Parede – em 1971 retransmitido por vários amadores espalhados pelo mundo deus voz a Paulo Cardoso pelo RCP e a Milton Santos pelo RCA aquando da Cimeira de Nixon e Pompidou, sendo Marcelo Caetano o anfitrião. Universalmente, os radio amadores, criaram um espectro para o RCA ir longe.

Mas vamos recuar um pouco mais no tempo para que a história do RCA não fique tão incompleta já que, pelos vistos, o que foi gravado em bobinas de 24 horas dos gravadores TEAC desapareceram ou não tiveram o cuidado de digitalizar todo o acervo dos registos que em 1978 deixei arquivado.

Decorria o ano de 1964 durante a crise sísmica de S. Jorge, pela voz do saudoso Padre Brasil que acompanhado de José Pinto de Azevedo nunca abandonaram a Urzelina e era a única voz que informava os deslocados jorgenses, quer no Topo, quer na Terceira ou nas outras ilhas para aonde alguns foram evacuados. Era o padre Brasil que percorria diariamente o caminho até Rosais, tudo abandonado, para se inteirar da situação das réplicas sísmicas que duraram vários dias, noticiadas pelo RCA.

Na última semana de Abril de 1970, excertos das comunicações do rei Hussein I da Jordânia falando com sua esposa Inglesa, mãe do presente Rei que se encontrava em Londres com o filho, durante a guerra dos seis dias, foi emitido pela mesma Estação.

Nove anos depois, se não erro em 23/11/1973 o Faial e Pico é sacudido por um terramoto que destruiu tudo a volta das margens da Ribeira da Conceição, Matriz até aos Flamengos, prolongando-se para o lado da Madalena que foi até Santa Luzia e S. Mateus do Pico até à Silveira. Lá esteve o RCA registando os clamores do povo e a segunda réplica do sismo de grau 6,5 da escala de Richter que era a que o Sábio Engenheiro Frederico Machado utilizava. Percorria o cimo de Santa Luzia, melhor do que qualquer jovem com passada firme e olho de cientista. Por vezes o nosso povo quer ter o maior, nem que seja na calamidade – e perguntavam a Frederico Machado: aonde foi maior, em S. Mateus ou Santa Luzia? – Ao que ele replicou: que importa a grandeza? O que me interessa é saber a sua origem e o porquê da sua derivação! Quanto à grandeza o que estava para ser destruído, destruídos está.

Início de Abril de 1974, RCA vai a S. Miguel fazer a cobertura da inauguração da Escola das Laranjeiras, pelo Ministro da Cultura Veiga Simão, O Emissor Regional dos Açores fica de boca calada enquanto Milton Santos e o respectivo técnico emitem directamente o discurso da apresentação da nova reforma do ensino em que se fala, pela primeira vez, na democratização do ensino. Nem gravação possuíam em condições e a Voz dos Açores forneceu a emissora do Estado que não teve capacidade para o fazer.

Vem o Vinte e Cinco de Abril e a Rádio Clube de Angra desde as seis da madrugada ininterruptamente até alta noite de 27 transmite livremente todas as notícias da TASS, BBC, ANI, MARCONI, France Press, entre outras de voz. A fronteira do Caia estava aberta por onde muita gente fugia. É o RCA que alerta através do Emissor Regional dos Açores que a mesma estava sendo o único ponto aberto da nossa fronteira. Foi ameaçado de ser encerrado, mas logo de imediato o Exercito veio apoiar os funcionários.

No dia de petas o RCA é ocupado pela maioria dos funcionários permanentes da Estação. Uma informação maliciosa levou a essa ocupação, porque um dos intervenientes que invejava a posição de Milton Santos levou os outros a aderirem a esse facto, porque ele afirmava que iria haver redução de pessoal e essa iria atingir somente os empregados efectivos. Tive um grande envolvimento nesse acto, como tive na saída do mesmo. Houve duas Assembleias Gerais das mais concorridas. A primeira para aprovação de novos estatutos que julgo nunca foi executada. A segunda no Liceu de Angra aonde foi devolvido o poder ao Presidente da Assembleia Geral e Direcção. Andaram com João Ávila aos ombros, mas dias mais tarde estava em frente da Cozinha Económica em turbamulta para arredar o homem que deu voz à Voz da Terceira.

Assim com estas pequenas achegas fica na história e registado alguns dos grandes feitos duma equipa que trabalhava para a Rádio Clube de Angra como se fossem sócios e não associados.

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