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Opinião
 

“Portugáis”


Domingo, 04.22.2007, 10:00pm (GMT-1)

O jornal de hoje trás uns tantos temas recorrentes, próprios de uma Região que avança pouco e, o que avança, é devido fundamentalmente ao crescimento das verbas provenientes do exterior.

As Finanças vão-se reestruturar terminando com os últimos resquícios do sistema distrital na Região. O CDS-PP, por indefinição do PSD e silêncio cúmplice dos não abortistas dos outros partidos, vem tentar puxar para si a defesa da vida nos Açores quando dois terços dos votos expressos dos açorianos foram contra a morte de crianças. E o Ricardo Rodrigues tem uma atitude de solidariedade para com os deputados regionais na questão das incompatibilidades, que embora lhe fique bem, não deixa de nos colocar a questão recorrente da produtividade real dos nossos representantes e da forma como são pagos. Há ainda o Secretário da Agricultura e Florestas a confirmar a crise relativa da agricultura dos Açores embora sem explicitar as culpas da governação nessa mesma crise.

Mas hoje não acho que valha a pena voltar a dizer mal da concentração de funções em Ponta Delgada, a denunciar os promotores da morte silenciosa através do aborto, a questionar o trabalho dos deputados regionais ou a esmiuçar a responsabilidade dos governos regionais na crise da agricultura dos Açores. Vou-vos voltar a contar uma parte da visita de estudo que realizei com alunos estrangeiros ao Alvor e a Sagres para vos explicitar a existência dos dois “portugáis” que coexistem em cada pedaço do território nacional.

Do lado bom está a empresa de aquacultura que visitámos na Ria de Alvor. São vinte hectares de terreno junto à ria, antigamente terraplanados para campos de arroz que não resultaram, e agora aproveitados para produzirem linguados, robalos e muitos outros peixes bons e saborosos que apreciamos quando jantamos no Algarve ou na Andaluzia. O empresário é biólogo e antigo investigador num qualquer centro de investigação das pescas. Saiu do Estado e da investigação oficial e preferiu dedicar-se à empresa e à investigação empresarial. Actualmente gere trinta empregados altamente qualificados, produz quatrocentas toneladas de peixe por ano, e tem um volume de negócios de três milhões de euros. Não vende para as grandes superfícies e prefere ter mais de sessenta clientes a quem pode fazer o preço que acha bem ao longo das cidades do Algarve e da Andaluzia, embora também venda para os outros países europeus.

O segredo está no know – how, na capacidade de risco e no investimento constante dos lucros obtidos. Não pára de crescer. Com o know-how distingue-se de outras aquaculturas que vão à falência porque o peixe não tem qualidade, porque morre por falta de oxigénio ou excesso de doenças, ou pura e simplesmente porque não têm uma cuidada gestão financeira. A capacidade de risco está na atitude. Diz que o negócio de qualquer empresário é perder dinheiro sabendo necessariamente que também o consegue ganhar. Finalmente investe grande parte dos lucros. Investe em investigação. Investe em mão-de-obra qualificada. E investe em equipamento bem mantido e adequado. Vale a pena visitar a aquacultura do Alvor.

Em contrapartida quando chegamos a Sagres o aspecto muda diametralmente. O responsável pelo centro apresenta-nos uma maquete de projecto de oceanário feita por um francês e lamenta que o Estado não consiga arranjar verbas para financiar mais um elefante branco. Paradoxalmente, mesmo ao lado, no imponente e simbólico Promontório de Sagres, outros funcionários manifestam a intenção de não nos deixar entrar mesmo pagando porque já passa das cinco e meia da tarde. Felizmente falharam. No entanto é patético que o mesmo Estado que tem a cargo o Promontório de Sagres, se preocupe em vedar o acesso a quem vem de muito longe e, ao mesmo tempo, se lamente por não ter verbas para fazer um oceanário fora de sítio e de tempo. Há mesmo dois Portugáis. O do Estado é quase sempre patético. Reparem.

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