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Enquadramento do 25 de Abril Quinta-feira, 04.26.2007, 11:21pm (GMT-1) Em Portugal há uma tendência para celebrar revoluções com dias feriados. Temos assim, 0 1º de Dezembro (1640), o 5 de Outubro (A República 1910). Tínhamos o 31 de Janeiro (Revolução do Porto), e o 28 de Maio (Estado Novo). Agora temos o 25 de Abril.
Caetano Tomás Por que será este gosto? Oxalá ele não esconda uma dificuldade em resolver problemas actuais, dificuldade essa que leve a ir buscar expiatórios do passado. Seria um sinal negativo de excessiva agressividade. O 25 de Abril foi há 33 anos. Muitos, hoje, não sabem que foi em 1974. Os que então nasceram têm agora 33 anos…E os que tinham 10, têm 43… Dos adultos já muitos morreram, outros estão velhos. Quer isto dizer que, para a maior parte dos portugueses actuais, o 25 de Abril é de um passado distante. Mas tem-se a impressão de que, bastantes deles, mesmo dos que nasceram depois, ainda vivem no “ estado de revolução” contra o regime anterior ou contra o actual. Criticam e nada fazem. Por isso, seria equilibrado e fecundo que as novas gerações captassem, por um lado, os impulsos energéticos que existiram naquele regime, bem como as notáveis realizações que nele tiveram lugar. E que, por outro lado, captassem as energias positivas que deram lugar à verdadeira Revolução de Abril. Era a ideia de fazer Portugal progredir. A Revolução era necessária e foi preparada, com paz e cidadania, por muitos portugueses equilibrados. Bastantes pertenciam ao regime, porém viam que era necessário ultrapassar as suas limitações inevitáveis. Não me canso de dizer que, a pessoa normal, equilibrada e amadurecida, pode e até deve, tomar parte numa revolução necessária. Mas, depois dela, sai da revolução e passa a viver e a trabalhar em paz. É o tempo das realizações em vez das acusações. Alguns vivem destas, mesmo hoje. Por isso causa impressão detectar mentalidades e consciências que, em vez de se afirmarem pelo trabalho e pela construção, continuam a afirmar-se por meio de atitudes contra o regime do Estado Novo que já vai tão longe e é mal interpretado. Continuam a bater no morto. Ainda hoje se caluniam pessoas sérias, honestas e eficientes que deram o seu melhor e trabalharam para melhorar Portugal. Isto, começando por Salazar que foi um homem sério, sincero, honesto e desinteressado. Custe a quem custar. Duma maneira geral vivia-se e trabalhava-se a sério com disciplina, dos campos às cidades, das escolas às fábricas. Há muito quem pense que a Ponte de Salazar ainda voltará ao seu nome. É verdade que houve problemas de liberdade para certas pessoas e grupos. Mas, quem se situar com realismo, poderá entender o sucedido. Em especial antes da 2ª Guerra. Os objectos de certa repressão foram os comunistas e alguns velhos “democráticos”. Eram movimentos ditatoriais com outros nomes. É um facto que nos atentados contra Salazar na década de 30, estiveram sempre envolvidas essas forças, como estiveram envolvidas na luta contra o Estado Novo. Quanto a certos “democráticos”, a experiência do país era a desordem e perseguição na 1ª República. Assim o Estado Novo apareceu como uma necessidade um tanto disciplinadora e estruturante. Por isso quase todos os portugueses acolheram de braços abertos a ordem trazida por ele. Quanto aos comunistas, quem tinha os olhos abertos, conhecia bem os objectivos deles. A Rússia soviética era o paradigma, como o foi até á sua queda. Ela realizou a maior ditadura do século XX, e talvez a maior de todos os tempos da Europa. Porém os últimos anos do Estado Novo, houve certa “paranóia”com o Comunismo. Toda e qualquer “agitação” podia passar por comunista, embora alguns não tivessem nada com eles. Mas, podiam facilitar-lhes os objectivos, como depois aconteceu. Neste campo a censura gerou um mau trabalho “cortando” coisas que não tinham problema. Na verdade houve pessoas penalizadas por confusão com o “reviralho”. É um facto que a partir, de certa altura, dentro e fora do “regime”, havia algumas tendências obsessivas confundindo com comunistas, quaisquer pessoas que usassem a palavra “democracia”. Muito em especial na década de 60. No fundo existia certa intuição do que aconteceria se eles conseguissem “a mão de cima”. Como realmente começou a acontecer quando caçaram poder em 74 e 75. Mesmo assim o regime do Estado Novo mostrava tolerância para com os dissidentes equilibrados. Seja um exemplo que me toca também a mim. Salazar não gostava dos sacerdotes que estudavam em Roma. Do tempo da guerra em diante, alguns deles eram um tanto dissidentes. Mas viviam e trabalhavam normalmente em paz. Eu fui um deles e não fui perseguido, embora o meu nome constasse nos ficheiros da PIDE. Quando voltei a Portugal em 1954, o regime já estava em verdadeira decadência. Tinha feito o seu tempo, e era necessário fazer-se alguma coisa, em paz. Eu regressei de Itália falando na necessidade de se preparar a substituição. Era importante organizarem-se partidos. Dei alguns passos nesse sentido, mas as mentes não estavam abertas. O partido comunista é que estava profundamente organizado e treinado. Era fácil ele agarrar tudo, como fez. A PIDE foi informada das minhas andanças, mas ninguém me perseguiu. Continuei a falar do assunto em termos cívicos, não em atitudes revolucionárias. Como muitos portugueses eu pensava que tinha de haver uma passagem calma para a democracia. Também muitas personagens do Estado Novo tinham esta atitude. Assim, quando se deu o 25 de Abril, os portugueses “inocentes” pensavam que a passagem estava feita. E em paz. Porém, poucas semanas depois daquele dia, o país caiu quase repentinamente sob uma extensa perseguição comunista, de longe muito pior e mais extensa do que a que aconteceu no Estado Novo. Na realidade, logo nos dias seguintes à revolução, começaram a aparecer “slogans” que eu conhecia dos comunistas de Itália. As palavras “reaccionários” e “fascistas” passaram a atingir todos os cidadãos que não fossem comunistas, ou que não concordassem com eles. Até houve muitos portugueses inconscientes e pouco esclarecidos que as utilizavam em cheio, para atacar as pessoas de quem não gostavam. Sob variadíssimos processos estava-se a passar para o regime de perseguições intensas. É que a Revolução tinha sido açambarcada. As coisas estavam perfeitíssimamente preparadas pelos comunistas, técnicos de açambarcamentos desses. A começar pela Revolução Anti - Czarista da Rússia em 1917. E também noutros países. O pior foi que muitos portugueses, embora sentindo mal estar, não deram conta de que estavam a cair nessa perseguição. E até participavam nela. Muitos ingenuamente “embriagavam-se” e passavam a apoiar as adulterações do 25 de Abril. E entravam na atitude “revolucionária”. É esta que ainda hoje existe por aí, revelando uma faceta negativa de muitos de nós. Isto foi uma segunda revolução que adulterou o verdadeiro 25 de Abril do povo português. De facto, depois desse dia houve um breve período a que chamo: “ período da inocência”. O seu símbolo aconteceu em Lisboa no 1º de Maio desse ano, com uma grande “parada”, que muitos tomaram como pacífica. Estabeleceu-se um governo provisório que deu algumas orientações para os novos problemas. A principal decisão foi o anúncio de eleições para o 25 de Abril do ano seguinte, 75. E foi o que salvou a liberdade, pois os comunistas ainda fizeram grandes esforços para elas não se realizarem. E ficar-se-ia automaticamente sob a sua garra. Entretanto eles apoderaram-se do governo e impuseram “pactos” aos partidos que se tinham formado. Era “sufocar” a liberdade, o que fizeram com muitas peripécias em todas as partes do país. Sempre no sentido de instalar o seu domínio, a nova ditadura. E sempre ajudados por indivíduos e grupos que lhes facilitavam as manobras. Porém as eleições aconteceram e revelaram que a frente comunista, que tanto tinha impressionado, saiu-se com 19% dos votos. Mas, mesmo assim, eles não queriam “largar”. Aconteceu então o “verão quente” de 75, que veio a terminar com os “confrontos” do 25 de Novembro. Foi o golpe final dado pelo General Eanes e por muitas forças em nome da liberdade. Mas é interessante saber-se que as actuações “visíveis” da libertação começaram nos Açores, a partir de Abril em Angra. E no Continente com o jornal “O Templário” de Tomar. O nosso Liceu estava dominado por alguns “agentes” deles. Eram especialmente um casal de professores e mais um outro. Mas havia muita gente que se portava como comunista. Era a moda dos fracos. É de notar que, na segunda votação nacional, eles não chegaram aos 3%. O que revela a quantidade de portugueses “fracos” que entravam nesse coro. Foi uma certa vergonha. Bem, muitos informadores da PIDE passaram para os comunistas. No nosso Liceu houve um aluno dos mais velhos que pensou em fazer alguma coisa para acabar com aquela situação, na Escola. E veio ter comigo. Com uma máquina de escrever que escondemos e com “químico”, fizeram-se seis nesgas de papel cujo conteúdo não sei de cor. Nem se conservou nada, pois era possível assaltarem-nos as casas. Os dizeres eram só isto, aproximadamente: “Uns tantos…. que não valem nada, estão a dominar este Liceu.” Ao sair das aulas, o aluno deixou no rés -do -chão uma janela desferrolhada. De noite entrou por ela e colou as tais nesgas em seis quadros de aulas. Nessa altura estas ficavam abertas. No dia seguinte o choque foi tal que suspenderam as leccionações e houve um daqueles “plenários” dominados por “eles” para saber quem fizera aquilo! Exigiam que fosse castigado! Mas, nas consciências, acendeu-se a certeza de que havia forças em acção. Daí a poucos dias já foi um panfleto com mais dizeres e “gozando”os slogans deles!! Foi um estrondo! O casal de professores fugiu. Era Maio. O “Director” mandou aparafusar as janelas que há pouco tempo ainda estavam aparafusadas. Ficou o outro professor. Mais uns dias, e fez-se uma circular directamente sobre ele. Esta foi deixada aqui e ali nos intervalos. O professor abandonou e foi-se embora. Mas, o principal foi as populações perceberem que havia forças vivas, e que “eles” eram um dragão de papel. A 6 de Junho foi Ponta Delgada. Em Agosto foram os lavradores e tractores da Ribeirinha, e o incêndio ocasional na sede comunista na Rua do Rego. Poucos dias depois começavam a incendiá-las no Norte do País E em Agosto houve em Lisboa uma grande parada do Partido Socialista a favor da liberdade. Foi decisiva. Assim o País ia acordando e mobilizando-se para o regime legal e verdadeiramente democrático. O tal 25 de Novembro deu o golpe de misericórdia nos projectos da nova ditadura. Foi há 32 anos. O sistema legal está consolidado numa democracia e irá amadurecendo. Falta é cada português empenhar-se e dar a sua parte na cidadania, para o crescimento mental, laboral e cívico da comunidade nacional. Isto supõe esforço de maturidade e trabalho consciencioso, livre e diligente. Em vez de se entreterem em acusações agressivas, como alguns esquerdas fazem por sistema. Esperemos que quando chegarem os 50 anos depois da Revolução, Portugal já esteja à altura das suas possibilidades nacionais e europeias. É um desafio para todos nós. |
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