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Opinião
 

A encruzilhada do preço dos concentrados


Domingo, 05.20.2007, 10:54am (GMT-1)

É um facto que a energia está a concorrer com a alimentação humana e animal, o que está a criar dificuldades, principalmente, à agro-pecuária, devido ao crescimento dos preços dos concentrados para os bovinos.

António Ventura

Uma das consequências do incremento deste factor de produção pode manifestar-se numa descida, a médio prazo, dos quantitativos da produção de leite nos Açores. Uma descida que poderá ser tanto mais significativa quanto maior a subida do preço, todavia, e por razões de ordem administrativa, a produção não deverá cair para limites preocupantes, uma vez que existe a imposição de cada Produtor produzir pelo menos 71% da sua quota, caso contrário é penalizado.
O sistema de quotas para os que não conhecem é assim mesmo um colete-de-forças, têm limites, não permite produzir nem acima nem abaixo de valores fixados.

Por outro lado, a vaca é um animal que sofreu e está a sofrer melhoramentos genéticos no sentido quantitativo e qualitativo da produção de leite, pelo que já não pode “viver” sem os concentrados. Urge, para uma maior autonomia, potenciar uma política regional que premeie a investigação, a informação e a formação no recurso à pastagem.
Ora, os Agricultores, neste sentido, encontram-se numa verdadeira encruzilhada, estão adaptados a um sistema político que lhes empurrou para a produção, embora controlada, e, consequentemente, para a dependência dos concentrados.
Com tudo isto percebe-se que a questão não é simples e mais uma vez os Agricultores irão absorver um exagerado custo que não obtém compensação nas vendas dos seus produtos, como ocorreu em outros casos, designadamente o aumento do gasóleo.

Mas a questão crucial prende-se com a descida dos montantes de produção, por mais ou menos significativos que sejam, pois avizinha-se para 2008 um momento crucial relacionado com a avaliação intermédia do sistema de quotas leiteiras. Uma revisão cada vez mais desejada pela Comissão Europeia.

Do que se sabe sobre este momento. Desde logo, parte-se do princípio que o sistema em vigor não terá muitos anos de vida, está esgotado perante as pressões mundiais das trocas comerciais e perante a necessidade de satisfazer as preocupações dos cidadãos da Europa noutros aspectos como o meio natural.

Possivelmente a Comissão pretenderá dar um primeiro passo, ainda que tímido á luz dos países liberalistas, para a livre produção de leite. Possivelmente a Comissão deixará implícito a “urgência” na adopção de se aplicar um modelo intermédio virado para uma maior mobilidade dentro da Europa das quotas leiteiras, possibilitando, deste modo, a concentração da produção de leite nos Países do Norte da Europa, os que querem o fim do regime de quotas e de onde a própria Comissária é oriunda.

Tudo isto ao acontecer, implicará que o sistema de limitação produtiva de leite como o conhecemos progressivamente desapareça dando origem a estádios intermédios de preparação até ao seu eclipse total.

Refiro-me a estádios intermédios que irão ocorrer a partir de 2008, com um aumento da quota leiteira para os Estados Membros e a diminuição dos preços da imposição suplementar – multas – para além dos valores inicialmente previstos.
Do mesmo modo, uma descida da produção de leite terá efeitos negativos nas indústrias transformadoras por falta de matéria-prima com reflexos sobre a produção. Um verdadeiro efeito dominó.

Toda esta situação deve-nos fazer reflectir sobre a fragilidade da Agricultura, ora falamos com preocupação sobre a ultrapassagem da produção de leite para, logo a seguir, falar-mos sobre a necessidade de manter a produção.
Uma actividade cada vez mais incerta.

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