|
Dimensão
Domingo, 05.20.2007, 10:54am (GMT-1)
Estive pela primeira vez em Santiago de Compostela em 1982. Passei por lá de novo muito fugidiamente em 1992. Na semana passada, a um quarto de século daquela primeira visita, voltei, mas com mais vagar.
Álvaro Monjardino
Da primeira vez, corria já na UNESCO o processo para a inscrição do centro histórico de Angra na lista do Património Mundial – e a Espanha nem aderira ainda à Convenção que permite aos países-membros proporem para esse fim os seus monumentos, conjuntos ou sítios de valor universal. Em qualquer caso, o centro histórico de Santiago já era então considerado, penso que sem discrepâncias, um dos mais notáveis do mundo em termos de qualidade intrínseca e cuidados de preservação. Não admira que viesse a fazer parte das primeiras propostas espanholas para o efeito apresentadas – e daquelas que se impunham por si.
A cidade fizera-se literalmente à volta do santuário que guarda as relíquias do apóstolo Tiago, filho de Zebedeu, levadas para aquele canto do império romano no tempo de uma perseguição aos cristãos. Por via disso Santiago se tornaria, após Jerusalém e Roma, o maior centro de peregrinações da Cristandade. Capital política da Galiza, tem hoje cerca de cem mil habitantes, uma universidade com trinta mil alunos fundada em 1495 e a ambiência animada e inconfundível de todas as cidades espanholas. O intenso turismo que ali se vê, mau grado o clima ingrato do noroeste de Espanha, é puramente cultural: desde o religioso – porque continua a haver peregrinos ao túmulo do Apóstolo – até ao motivado apenas pelo que aquilo é e vale em termos de Arte, Urbanismo e História.
Não cabe, em monumentalidade, comparação entre Santiago e a nossa cidade de Angra, entrada dois anos antes dela na lista do Património Mundial: aí, Santiago leva-lhe a palma, e a que distância! E todavia a nossa não desmerece – porque o que lhe falta em espectacularidade arquitectónica e urbana lhe sobra em significado histórico, documento imperecível que é da expansão europeia por todo o mundo, no seu ímpeto, nas suas lutas e nas suas ambições – e da capacidade de um pequeno povo para imaginar e erguer uma urbe cheia de carácter no meio do oceano, afeiçoando-lhe o chão, captando as águas e atendendo aos ventos dominantes. Foi isto que tornou esta cidade um indiscutível património cultural da Humanidade. Mas é isto também que falta assumir com convicção, para também com ela a defender, promover e saber mostrar a quem vier. Questão de dimensão, afinal – mas a nossa, a de agora: porque a outra, a dos que a fizeram, podem crer que essa não faltou.
|