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Opinião
 

À sombra de Tito


Domingo, 05.20.2007, 10:56am (GMT-1)

A travessia para a margem esquerda do rio Varda pareceu-me por instantes trivial - pese embora a força das águas que correm debaixo da ponte - mas um olhar mais atento ao casario cedo revelou um outro mundo.

Paulo Casaca

A realidade do urbanismo jugoslavo socialista, de edifícios de duvidosa qualidade implantados numa estrutura ordenada e harmoniosa cede lugar a um casario multicolor em ruas gentilmente flectidas num perfil de casas também ele algo curvilíneo, no que me explicaram ser a velha Skopje.

Cedo aparece um minarete, e depois a velha residência do Íman, de traços inconfundivelmente turcos, a ameaçar ruína eminente e evidenciando tanto a distância como a proximidade do passado colonial.
Nas ruas, mais do que a língua - a sonoridade do albanês não se confunde com o macedónio, variante eslava aparentada com a dos seus vizinhos da Sérvia - e mais do que o vestuário ou o tom de pele, é o aspecto mais pobre que distingue a margem esquerda do Varda.

O meu cicerone, Adriano Martins, o Secretário Geral da Agência Europeia de Reconstrução (AER) - o principal instrumento europeu para a reconciliação nos Balcãs - nosso compatriota e homem de imensa determinação e capacidade, tinha-nos antes explicado a importância do investimento europeu na auto-estrada que liga Budapeste a Bizâncio e Atenas e que rasga o país de Norte a Sul, mas como ele salienta, aqui, nesta ponte, passa a fronteira entre duas culturas, duas línguas e duas religiões, e essa fronteira é mais difícil de ultrapassar do que as que estão a ser rasgadas por auto-estrada.

Na loja de tapetes e artesanato, entre panos coloridos e objectos metálicos com as mais diversas funções e formatos, descobrimos uma fotografia que apesar das suas enormes dimensões passa quase despercebida.
Curiosamente, apesar de pela minha idade, formação e militância ter conhecido bem os dois, penso primeiro tratar-se de Enver Hoxa, o velho ditador albanês, antes de o dono da loja me explicar que se trata de Joseph Tito.
E é assim, veneração do velho ditador, pasme-se, não da pátria albanesa, mas antes da velha Jugoslávia, que todos nos tinham explicado ser uma construção artificial e sem sentido.

Nada que se possa confundir com o folclore salazarista recentemente promovido no nosso país. Entre nós, não vale a pena discutir seriamente as vantagens do passado em relação ao presente: todos sabemos que temos hoje mais liberdade, melhor nível de vida e deixámos de ter guerra.

Da antiga Jugoslávia de Tito para a Macedónia contemporânea passamos a ter guerra (interrompida desde 2001 mas que estou convencido que pode voltar assim que a AER se for embora) queda inequívoca do rendimento e do nível de vida e menos tolerância entre culturas e religiões sendo naturalmente discutível se a indiscutível liberdade do presente compensa tudo o que se perdeu do passado.

Pessoalmente não me preocupam estas nostalgias do passado nem tão pouco qualquer fantasma de comunismo que por aqui me parece definitivamente enterrado, preocupa-me antes a força com que o espectro do totalitarismo contemporâneo - que veste as cores da religião islâmica - se esconde por trás daqueles perfis sinuosos.

A continuada marginalização da comunidade albanesa, a incapacidade ou falta de vontade em ultrapassar os confrontos de culturas são factores de enorme risco para a estabilidade europeia, estabilidade que irá ser seriamente posta à prova se o cenário de desastre no Grande Médio Oriente continuar o seu caminho.
O problema do "choque de civilizações" de Samuel Huntington - o livro ocidental mais difundido pelo regime de Teerão - não está só no choque, está no conceito truncado de civilização.

A nossa civilização, não é a ocidental, a do capitalismo saído da ética protestante, ou a anglo-saxónica, é apenas a civilização moderna, contemporânea ou post-moderna (não entro nesta discussão) partilhada por cristãos europeus, africanos ou americanos, muçulmanos árabes ou persas, budistas hindus ou quem quer que seja no Centro e Extremo Oriente.
Também nós nos arriscamos a olhar com saudade para o retrato de Joseph Tito se não entendermos rapidamente o que isto quer dizer.

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