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Religião
 

Que esperar do trabalho dos leigos?


Quarta-feira, 05.07.2008, 12:19pm (GMT-1)

Os leigos foram durante séculos, esquecidos, se não mesmo ou menosprezados, na sua dignidade e condição eclesial. Já antes do Concílio houve profetas a gritar, com palavras e obras, que era necessário acordar para esta situação e dar-lhe resposta positiva e sem demora.

A Acção Católica e as iniciativas que a precederam, a reflexão teológica de gente com nome e mérito, algumas intervenções dos Papas, movimentos espontâneos surgidos em algumas Igrejas Particulares por essa Europa fora, a força de cristãos teimosos e acordados que acabaram por arrombar portas que tardavam em abrir-se, alguns bispos, padres e leigos a trabalhar com grupos comprometidos, que não se resignavam e assim foram apagando a pobreza da definição e da realidade laical, marcas de uma noite longa de empobrecimento. A nível alargado e, por parte de gente mais responsável, dos leigos pouco mais se dizia, além de que não eram nem clérigos, nem religiosos.

Indicaram-se para eles, quase só em roda pé eclesiástico, algumas formas associativas que lhes poderiam propiciar algum conforto e ajuda espiritual, associações normalmente afectas a ordens e congregações religiosas.

O estilo de séculos que vigorou na Igreja tinha uma forte marca clerical e não contava, por isso mesmo, com a colaboração dos leigos. Nem se sabia o que pedir-lhes ou o que dar-lhes a fazer, dada a sua pouca formação e, também, porque a sua prática religiosa se processava, na maioria dos casos, na fidelidade rotineira a tradições. Quem saía deste esquema era considerado como pessoa rara. Assisti na minha juventude sacerdotal à desconfiança de padres zelosos ao apreciar, com manifestas reservas, um grupo de leigas que chegavam à diocese pela mão do seu bispo, e às quais era necessário estar-se atento, porque elas rezavam salmos e liam o Padre Congar…

O Vaticano II, ao recuperar o sentido do Povo de Deus, varreu, em teoria, o campo da desconfiança e da menoridade laical. Mas a carga clerical do tempo pareceu ter entendido e considerado, prevalentemente, os leigos como colaboradores dos padres. Logo estes os apanharam para serviços do culto, recomendados pela reforma litúrgica, e para outras tarefas do género, processadas à volta do templo ou dentro do mesmo. Não foram muitos os que logo os ajudarem a compreender e a viver a sua vocação de cristãos no mundo, chamados a levar às realidades terrestres - família, profissão, vida associativa e social - as energias e a luz da mensagem evangélica.

As coisas vão mudando, por vezes ainda devagar, se as confrontarmos com a velocidade do tempo e das mudanças culturais, geradores de novos critérios e valores a marcar a vida e mentalidade das pessoas e da sociedade.

Os documentos conciliares, o novo Código do Direito Canónico com o elenco dos direitos e deveres dos leigos, os sínodos, as intervenções e os discursos dos papas por esse mundo fora, as cartas pastorais dos bispos, as publicações de toda a ordem, abrem caminhos novos para quem sentir vontade de os andar. Multiplicaram-se os novos movimentos laicais, ganhando plena cidadania na Igreja, e deles já disse que foram um ”novo Pentecostes”. Abriram-se cursos de formação teológica, uns mais acessíveis que outros. Tardam, porém, movimentos laicais de actuação nos meios de vida e outros de fronteira social e cultural, onde a vida é mais interpelativa e a reflexão mais acutilante e consequente.

O que se pode esperar do trabalho dos leigos tem, como pressuposto, o reconhecimento da sua vocação e condição, da autonomia que lhes é própria, dos meios que se lhes proporcionam para a sua formação, da sua ligação à comunidade que os integra e apoia.

Sem um laicado cristão preparado para participar e intervir responsavelmente, a Igreja está empobrecida em ordem à sua missão no mundo. Torna-se pouco significante e terá sempre dificuldade em se inserir positivamente na sociedade humana.

Urge, por isso, o reconhecimento dos carismas próprios de cada um e a sua integração na vida da comunidade, bem como uma acção organizada nos diversos campos do apostolado. Urge a implementação, onde não existem ainda e o seu reconhecimento sem rebuços, onde já existem, de conselhos pastorais, diocesanos e paroquiais, constituídos por gente capaz, interiormente livre para ver, opinar, programar e avaliar as acções. Urge, também, não prender os leigos ao altar, porque o seu campo de acção é o da vida e das realidades temporais, pois aí se processam as suas responsabilidades familiares, profissionais e sociais. Deste modo, torna-se necessário, ou pelo menos útil, reflectir com os leigos os novos dinamismos sociais e a sua influência, a realidade social e cultural emergente, os campos a descoberto e o modo de estar neles evangelicamente, com sentido dialogante, aberto e cooperante.

A hora é tanto mais dos leigos, quanto mais for da Igreja a assumir-se como Povo de Deus.

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