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A Igreja quer estar ao serviço da humanidade


Segunda-feira, 04.09.2007, 01:20pm (GMT-1)

Transcrição integral da mensagem pascal do Bispo de Angra, D. António de Sousa Braga.

Páscoa significa “passagem”. Inicialmente, a Páscoa era festa de pastores, na passagem de estação. Os hebreus fizeram dela “memorial” da libertação do Egipto. Para os cristãos é a festa principal do ano litúrgico, em que se “comemora” a Páscoa de Cristo: passagem deste mundo para o Pai, da Paixão à Ressurreição, da morte à vida; “passagem” de Deus, que outrora libertara o povo oprimido no Egipto e, na manhã de Páscoa, ressuscita Jesus, primícia de uma nova humanidade.

1. “Este homem, que vós entregastes e eliminastes, Deus ressuscitou-O” (Act 2, 24). Foi o testemunho dos Apóstolos, transmitido de geração e geração. É o fundamento e o núcleo central da fé cristã. A nossa fé, como a dos Apóstolos, nasce e fundamenta-se na Páscoa. Jesus ressuscitou e está vivo no meio de nós, como Salvador, que liberta e realiza as mais profundas aspirações humanas.

A Páscoa é a resposta do Pai à morte do Filho na Cruz, naquele extremo despojamento, que nos escandaliza e nos deixa perplexos. Como nos escandalizam e nos deixam perplexos a dor humana e o sofrimento dos inocentes, a injustiça e a violência, no meio do silêncio insuportável de Deus.

Deus rompe o silêncio na Páscoa, que rasga para humanidade um caminho de vida com abundância. Com a Ressurreição, o madeiro da Cruz converte-se em árvore de vida. Cristo-Cabeça arrasta na Sua vitória os membros do Corpo. O destino da humanidade é o triunfo da vida.

2. É esta esperança, que celebramos na festa da Páscoa e na “Páscoa da Semana”, que é o Domingo, Dia do Senhor Ressuscitado, que Se faz presente no Mistério Eucarístico, «memorial» da Sua Páscoa, que renova todas as coisas.
A Eucaristia Dominical não é simplesmente rito, desligado da vida. É semente e projecto de transformação do mundo. Participar na Eucaristia e “viver segundo o Domingo” é “comemorar”, isto é, “fazer memória”, e, portanto, tornar presente e actuante a vitória pascal de Cristo.

“Por isso, é necessário que, na Igreja, este mistério santíssimo seja verdadeiramente acreditado, devotamente celebrado e intensamente vivido” – exorta o Papa Bento XVI, na sua recente Exortação Apostólica Pós-Sinodal, Sacramentum Caritatis (nº 94).

O documento papal não constitui um retrocesso em relação à reforma litúrgica, actuada a partir do Concílio Vaticano II, como chegou a ser insinuado nalguns MCS. As dificuldades encontradas “não podem ofuscar a excelência e a validade da referida renovação litúrgica, que contém riquezas ainda não plenamente exploradas” (Ibid., 3). A intervenção do Papa vai precisamente no sentido de dar qualidade às celebrações eucarísticas, valorizando o património bimilenar da Igreja, sem descurar a “inculturação da fé”, que recomenda (cf. Ibid., 54). Como recomenda às Conferências Episcopais de verificarem a eficácia pastoral do percurso actual da iniciação cristã, para ver qual é o melhor seguimento a dar à preparação e à recepção dos Sacramentos, de modo a ajudar os fiéis a centrarem a vida cristã na Eucaristia. Reflexão esta que, eventualmente, poderia colocar a 1ª Comunhão depois do Crisma.

3. Mas estas recomendações não foram notícia. O que foi notícia foi o latim, o gregoriano, o celibato dos padres e a comunhão dos divorciados recasados. E afinal de contas, o Papa limitou-se a apresentar as propostas dos Padres Sinodais. Falando das grandes concelebrações em encontros internacionais, referiu a óbvia conveniência de as partes fixas da Missa serem em latim (não as leituras, a homilia e a oração dos fiéis). O que já é prática corrente. Como é igualmente prática corrente, também entre nós, recorrer, de vez em quando, à melodia gregoriana.

Quanto aos temas candentes do celibato e da comunhão, o Santo Padre confirma as orientações actuais da Igreja, conforme sugerido pelo Sínodo dos Bispos. Não se pode dizer que não haja problemas pastorais em aberto. A sua solução irá amadurecendo no seio da Igreja, sem rupturas, nem cedências à moda do momento, mas na fidelidade ao Espírito. Ele é que guia a Igreja. Não as correntes de opinião, nem os MCS.

A Igreja, seguindo o Seu Mestre, quer estar ao serviço da humanidade, assumindo as suas causas, segundo o projecto de Deus. Não detém as soluções técnicas dos problemas da convivência humana. Mas aponta a meta e alimenta a esperança da vitória pascal da vida e da história, que compromete os cristãos no “testemunho público da própria fé”.

Feliz Páscoa! São os meus votos, que exprimem o propósito e o compromisso da Igreja, para dar razões da sua esperança, não só com palavras, mas também e, sobretudo, com obras e em verdade.