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ATRAVÉS DE PEN INFORMÁTICA - Novo sistema vai facilitar a vida dos doentes açorianos
Terça-feira, 06.10.2008, 12:01pm (GMT-1)
Uma empresa portuguesa vai lançar este mês uma pen informática que guarda todas as informações clínicas de um doente, desde as análises ao sangue a um TAC. Este novo dispositivo poderá ser uma grande mais-valia para os muitos pacientes açorianos que têm de deslocar-se ao Continente. Não só é mais cómodo e seguro (é mais fácil de guardar, logo a probabilidade de se extraviar baixa) como também evita a necessidade de repetir exames, o que poderá levar o Estado a poupar entre 395 a 790 milhões de euros.
João Moniz
Uma empresa portuguesa prepara-se para lançar um novo produto que poderá revolucionar a forma como doentes e médicos trocam informação, nomeadamente organizando todo o historial clínico de um paciente numa pen informática.
A ideia pode parecer estranha agora, mas na segunda quinzena de Maio passará a ser realidade, altura em que a Mobilwave vai disponibilizar o ePSI no mercado.
Este novo dispositivo consiste num arquivo organizado e confidencial de toda a história clínica individual de um paciente, incluindo eventos clínicos, alertas, receituário, problemas, exames e análises, ecografias, endoscopias, raios-x, vídeos e outro tipo de documentos. Com o ePSI, defende a empresa que o vai vender em farmácias por 35 a 40 euros, «o cidadão não terá mais que se deslocar com os sacos de exames e análises nem terá o problema de os ter perdido ou a dificuldade de elucidar o seu médico sobre os seus antecedentes clínicos». Basta ao doente chegar ao consultório e dar a pen ao médico.
Um modus operandi que poderá ser bastante mais prático para os doentes açorianos que se têm de deslocar ao Continente, por exemplo.
Em vez de repetirem exames no hospital continental a que se deslocam ou de se fazerem acompanhar por um conjunto de papelada extenso – correndo o risco de se esquecer ou de perder algum documento importante durante a viagem – os doentes poderão passar a transportar apenas este pequeno dispositivo informático. Além disso, juntam a vantagem de poder guardar uma cópia de todo o seu processo clínico no seu computador pessoal. Assim, caso haja algum problema com a pen, basta recarregar todo o processo a partir do computador para um novo dispositivo.
Socorro pré-hospitalar mais facilitado
Para que não restem dúvidas, esta pen acaba por distinguir-se das normais que hoje estão à venda por ter um sofisticado software que organiza toda a informação recolhida. Ou seja, o ePSI dispõe os dados que são incorporados no sistema por datas, importância e área de saúde – doenças cardíacas para um lado, renais para outro, por exemplo. Francisco Duarte, administrador da Mobilwave, revela ainda que «a informação na pen pode ser cifrada por algoritmos, para que um doente com um historial de doenças psiquiátricas não seja exposto quando vai ao dentista».
Além disso, o novo sistema tem «módulos funcionais extra, para as necessidades mais específicas de cada fase da vida como a gravidez ou a pediatria». Por outro lado, como é pequena e leve, esta pen informática poderá estar anexada a um porta-chaves, acompanhando sempre o seu proprietário. Esta situação facilita o socorro em situações de emergência.
No caso de um doente que seja alérgico a determinados medicamentos ou que sofra de doenças que influenciam o socorro – como epilepsia, por exemplo – consultando a pen, ainda durante a viagem para o hospital, os profissionais de saúde terão acesso a informação relevante, poupando tempo que poderá fazer toda a diferença.
Estado pode poupar milhões (sub-título)
Como o ePSI permite descarregar imagens directamente dos aparelhos médicos, os hospitais poderão fazer uma redução significativa nos consumíveis associados aos exames complementares de diagnóstico – muitos hospitais, por exemplo, davam CD com a informação dos exames aos doentes, o que poderão deixar de fazer agora. Além disso, este novo sistema vai permitir ainda reduzir a despesa com a duplicação de exames. A Mobilwave ainda não fez as contas, mas várias fontes do sector da saúde confirmaram que um número significativo do orçamento do Sistema Nacional de Saúde (SNS) é gasto com a repetição desnecessária de exames (quando as pessoas perdem os documentos ou quando mudam de hospital ou de médico), num montante que deverá rondar os 5 a 10% dos fundos do SNS. Como o Orçamento de Estado para 2008 atribui 7900 milhões de euros ao SNS, o Estado poderia poupar entre 395 a 790 milhões de euros.
Por isso, A UNIÃO sabe que a Mobilwave pretende reunir com o Governo para convencer a ministra da Saúde a comparticipar o ePSI – acordo que também dependerá sempre da vontade de Teixeira dos Santos, “rei e senhor” das Finanças do Estado. Certo é que, como referido anteriormente, este sistema estará à venda nas farmácias e muito possivelmente também nas lojas que disponibilizam medicamentos sem receita médica, as chamadas parafarmárcias.
Por outro lado, a Mobilwave tem quase fechados acordos com seguradoras e hospitais privados que prtendem oferecer o ePSI aos seus clientes.
Médicos e doentes algo reticentes
Apesar de o projecto parecer inovador, o bastonário da Ordem dos Médicos não se mostra entusiasmado com o iminente lançamento do ePSI. «Há mais de 10 anos que ouço falar num cartão com um chip com toda a informação médica, a única novidade aqui é a pen. Mas esta questão seria resolvida de forma mais barata caso apenas se resolvesse o problema da desorganização dos serviços, que está na origem dos desperdícios», referiu ao Destak Pedro Nunes.
O bastonário acrescentou ainda a dúvida sobre a questão ética e legal deste sistema, uma vez que compila dados pessoais permitindo o acesso a terceiros, algo que sempre criou polémica na sociedade portuguesa, como no caso da videovigilância ou da base de dados de ADN. Outra questão levantada por alguns profissionais da saúde é o facto de alguns médicos abdicarem de repetir os exames quando têm um novo doente, muitas vezes para se sentirem mais seguros com a qualidade do exame feito.
Do ponto de vista dos doentes, João José Cardoso, presidente do Movimento de Utentes da Saúde (MUS), vê vantagens neste novo serviço, mas, também ao Destak, alertou para os «riscos de um doente aceder a informação que não entende na totalidade». Para João José «existe o perigo da automedicação, com o paciente a decidir repetir um tratamento que já fez perante sintomas que considera iguais». Por outro lado, o presidente do MUS relembra que «possivelmente uma boa parte da população para quem este sistema seria útil não tem acesso a computadores.
Não sei se este choque tecnológico funcionará». No entanto, a verdade é que o uso desta pen pelos médicos não deverá ser um problema, uma vez que 88% dos clínicos portugueses não só têm como utilizam o computador no seu consultório.
Uma percentagem confirmada por um estudo encomendado pela Comissão Europeia para avaliar o uso das tecnologias de informação entre os médicos de clínica geral. E o surpreendente é que a taxa de utilização dos computadores nos consultórios portugueses fica um ponto percentual acima da média europeia, que é de 87%. Para já, três quartos dos médicos usam o computador para armazenarem os dados dos doentes e apenas 63% utilizam-no durante a consulta com o doente. Uma realidade que poderá vir a mudar muito em breve com o ePSI.
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