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NO PIOR DOS CENÁRIOS - Pandemia de gripe pode afectar 97 mil açorianos


Domingo, 04.01.2007, 11:39am (GMT-1)

Mais de quatro milhões de portugueses poderão ser infectados com a pandemia de gripe, avança um estudo do Instituto Nacional de Saúde. Nos Açores, no pior dos cenários, poderão registar-se quase 97 mil casos, mais de 135 mil consultas, 4800 hospitalizações e 1319 mortes. Devido a doenças crónicas, um quinto da população nacional corre um risco elevado.

João Moniz

A ocorrência de uma pandemia de gripe é uma certeza científica, restando apenas saber quando será e qual o vírus que a irá despoletar – o H5N1, da gripe das aves, é o mais sério candidato. Por isso mesmo, o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) patrocinou o estudo Cenários Preliminares Para Uma Eventual Pandemia. O documento, a que A UNIÃO teve acesso, traça as possíveis consequências de uma pandemia de gripe, não só a nível nacional, mas também por regiões. Para tal, os autores da investigação calcularam várias taxas de ataque do vírus: uma de 10%, correspondente a uma primeira onda da doença, e, numa segunda fase, uma incidência de 20%, 25% e 30%. Ou seja, a força final do vírus poderá variar entre os 30% e os 40%.

Para os investigadores, «haverá uma forte probabilidade de que as consequências da eventual pandemia se situem entre os cenários mais extremos aqui descritos. No entanto, outras situações, mais graves ou menos severas do que as descritas, poderão verificar-se, pelo que os esforços de planeamento e de organização da luta contra a pandemia de gripe não devem ignorar essa possibilidade». Aliás, os autores preferem falar de cenários e não de previsões porque «os conhecimentos sobre uma eventual pandemia de gripe, o seu possível agente, a efectividade dos meios de luta disponíveis e os impactos que desencadear na população são ainda muito escassos e incertos». Logo, é ainda impossível prever com 100% de certeza o que irá acontecer quando Portugal for afectado por uma pandemia de gripe.

A duração de cada uma das ondas foi fixada em oito semanas, pelo que, no total, a pandemia deverá atingir 16 semanas. «Este período de oito semanas para a duração de cada onda da pandemia corresponde à duração média de uma epidemia inter-pandémica, isto é, ao número médio de semanas consecutivas em que a taxa de incidência semanal se encontra acima da linha de base (aprox. 50 casos/100 000 habitantes)», explica o estudo citado. De acordo com os especialistas, a pandemia não vai começar nem terminar de forma abrupta, pelo que serão sempre necessárias duas semanas para determinar o início e o fim do surto. Neste espaço de 12 semanas, o maior número de casos deverá ocorrer entre a 6.ª e a 7.ª.

Pandemia nos Açores

Consoante a taxa de ataque do vírus, o número de açorianos que não vão resistir à pandemia de gripe varia entre os 330 e os 1319 (ver tabela). No entanto, estamos a falar de valores máximos. Feita a média entre estes e os mínimos, os investigadores estimam que o número provável de mortos nos Açores oscile entre os 165 e os 660. Refira-se, ainda, que a mortalidade pode baixar com a aplicação do Oseltamivir – o medicamento mais eficaz contra a gripe das aves.

O estudo em causa calcula uma redução que vai dos 10% aos 30% - neste último cenário, com um ataque a 40%, o mais certo é que morressem 546 pessoas na região, mas o número poderia chegar aos 1093. Também as hospitalizações podem variar consoante a medicação. No pior dos cenários, quase cinco mil açorianos teriam de ficar internados nos hospitais. Isto depois de terem sido efectuadas 135 387 consultas para confirmar a existência de 96 705 casos. Por idades, a faixa etária que vai dos 14 aos 65 anos é a que regista mais casos (63 471), consultas (88 859), hospitalizações (1570) e mortes (353). No entanto, como seria de esperar, é a faixa + de 65 anos que menos resistências têm à doença. Isto porque para ocorrerem 302 mortes (menos 51) são precisos apenas 12 528 casos (menos 50 943). Mais de 20 mil crianças vão apanhar o novo vírus da gripe, mas só terão de ser internadas. O número de mortes fica-se pelas 10, no máximo, sendo de esperar que não ultrapasse as cinco.

Dois milhões
com alto risco

A nível nacional, mais de quatro milhões de portugueses deverão ser afectados pela pandemia de gripe, podendo o número de mortos chegar aos 64 mil (ver tabela). Mais especificamente, um quinto da população corre um risco elevado de sofrer complicações provocadas pela gripe. «A gravidade da doença e a probabilidade de ela acarretar complicações, hospitalizações e morte, está associada à percentagem da população portuguesa que sofre de um conjunto de doenças crónicas. Tal como para os cenários de 2005, consideraram-se estar em risco elevado, todos os indivíduos que tiverem, pelo menos, uma das doenças crónicas para as quais a vacina antigripal sazonal está indicada», avançam os investigadores. Nesta situação estão 2 291 764 cidadãos (22% da população, segundo os Censos de 2001 do Instituto Nacional de Estatística).

Os idosos são a faixa etária mais ameaçada: 46% das pessoas (779 007) com 65 anos ou mais têm, pelo menos, uma das doenças crónicas que obrigam a tomar a vacina anti-gripe. A percentagem de incidência baixa para os 20% (1 292 990 cidadãos) no escalão 15-64 anos e para 10% nas crianças: 219 768 jovens com 14 anos ou menos estão em grande risco. Perante estes dados, o ministro da Saúde reagiu com alguma dureza. Correia de Campos questionou a exactidão do estudo e exigiu que ele fosse avalizado pela comunidade médica, através da publicação do relatório numa revista internacional da especialidade.

Os investigadores recusam as críticas e, mais uma vez, salientam que esta investigação não pretende ser 100% fidedigna, o que seria impossível nas actuais circnstâncias, mas sim uma ferramenta de trabalho. À margem da polémica, o próprio director-geral de Saúde, Francisco George, já aconselhou os diferentes profissionais da área a terem estes dados em atenção aquando da planificação da resposta das suas estruturas a uma pandemia de gripe.